Blog do André Ferrer


Conto: Bem alinhado


Debaixo de uma copada, na semi-obscuridade, havia dois homens fardados. Ao menor sinal de um motor, afastaram-se da rua e aguardaram que o veículo se aproximasse.

Gol.

Páre com isso. Eles vão enxergar a gente!

— Depois dessa curva?! Impossível. E também tem as árvores!

Realmente, a localização e o formato daquele bosque eram perfeitos. Asseguravam o fator surpresa tão necessário ao projeto da dupla.

O automóvel passou e um dos homens abandonou seu abrigo. Braços abertos, atravessou a rua na diagonal. Parecia tatear o caminho que se projetava sobre a cidade. À certa distância, muito cauteloso devido ao terreno acidentado, voltou as costas para o desfiladeiro.

— Não falei? — disse cuidadosamente.

— Volte aqui!

— Não falei? — repetiu, a voz um pouco mais nítida, mas cautelosa, como se as palavras também pudessem conduzir a um abismo.

— Deixa de palhaçada — o outro mandou. Parecia irritado. A um passo de exercer toda a sua autoridade.

Gol! É um Gol! — festejou o primeiro. — Não falei? Era Gol! Só pelo barulho do motor conheci.

Atrás dele, morro abaixo, as luzes da cidade bruscamente apagadas pela mancha negra da Guanabara. Para o alto e ao lado, como se fosse um cupinzeiro infestado de vaga-lumes, uma das muitas favelas do Rio de Janeiro.

Esse labirinto, essa gigantesca sobreposição de barracos iluminados, poderia ser tocado com as mãos. Parecia distante, mas ficava logo ali, do outro lado de um caminho íngreme, a contornar a base do morro, lá embaixo, num ponto praticamente invisível do arvoredo. Mais adiante, a rua começava a subir, ziguezagueava e saía do meio dos barracos para fazer uma curva fechada em rampa, logo depois de uma parada de ônibus, entre um paredão rochoso e a ribanceira. Só depois dessa curva, num platô escavado na lateral da montanha, o caminho ficava plano e o arvoredo, que tomava o lugar da rocha e do penhasco, ladeava-o até um pouco mais adiante, quando a claridade urbana reencontrava os blocos do calçamento e a rua começava a descer sobre a cidade.

Ideal como esconderijo às cinco e meia da manhã, o bosque tinha sido eleito para o trabalho que os dois homens deviam fazer.

— Volte aqui! Deixa de palhaçada e me ajude com as garrafas.

— Ouça!

— Não é nada. Cale essa boca e trabalhe!

— Tudo bem. Estou indo.

Quando se aproximou, trouxe um desalinho gritante, que o chefe ainda não tinha notado.

— Abotoe a farda malandro! Que negócio é esse, aqui, cheio de caretinhas desenhadas na camiseta?!

Bad boy! Nunca viu?

— Claro que sim! Tá pensando, agora, que é bandido da Zona Sul? Eh! Eh! Eh!

Durante a conversa, os dois homens enchiam quatro garrafas de refrigerante com a gasolina de um galão de cinco litros.

— Você tem razão. Fecho sim. Fecho sim. Não vamos jogar a culpa nos pitboys.

— Ou pior: estragar o disfarce antes que o coletivo estacione!

— Nem fale. Já chega ter suado a beca na caminhada. Nosso morro é longinho heim cumpadi! Além do mais, fico uma besta-fera se derrubo gasolina nos trapos!

— É agora!

— Vamos ver...

Diga, homem, se o nosso ônibus vem aí! Diga!

Enquanto escutava, o especialista em motores descreveu o avanço do ônibus ao redor do morro, a parada no ponto (Vai lotar heim! Cheio de trabalhadores!) e a marcha pesada no início da ladeira.

— Depois que eu subir, impeça o motorista! Não permita que ele feche a porta e arranque! — mandou o chefe com as mãos na cintura, fazendo pose de policial. — Vamos! E não vá esquecer de abotoar a farda!

Imediatamente, segurando as garrafas de PET cheias de gasolina, posicionaram-se a fim de interceptar o veículo.

— Você tem razão. A camuflagem de PM já tá manjada. É melhor prevenir. O motorista pode até desconfiar e tocar em diante... Se até os filha-da-puta daqui, no dia que botaram fogo nos nossos, utilizaram o disfarce de polícia! Melhor prevenir.

No meio da rua, com os faróis no seu rosto, ele depositou as garrafas no asfalto, atrás das pernas unidas, e abotoou a farda meticulosamente.


Escrito por André Ferrer às 19h04
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Crônica: Sinais misteriosos

Não é à toa que a terapêutica freudiana tem a palavra como instrumento. Palavra dita, de preferência, durante um sem-número de sessões.

Na forma escrita, ela também pode melhorar personalidades. Tanto é que o desvio sempre chega romanceado às futuras gerações, transformando-se, no correr do tempo, numa espécie de charme indispensável para a construção de um gênio literário.

Mas a escrita, mesmo que o escritor jamais publique uma linha, pode significar a cura de muitos males psicológicos.

Eu mesmo, um caso típico de sociofobia, estou em franca recuperação.

Escritor de nascença, percorri o caminho fácil que do pediatra passa pela Mãe Joaquininha, benzedeira de renome — sim, trata-se, aqui, de uma versão tupiniquim de Wood Allen e naturalmente termina no divã do analista, para, só depois de ter levado a sério a escrita, viver os primeiros indícios de sanidade.

Apesar dos avanços, mantenho os pés no chão. Sei muito bem que não existe milagre ou panacéia. Certos aspectos da minha sociofobia são incuráveis. Quando estou com alguém, por exemplo, sinto que a pessoa responde a determinados sinais, algo como um letreiro vermelho, que apaga e acende, informando-a particularmente sobre o instante preciso no qual termina um ato e começa outro.

Da minha parte, nunca sei quando é o momento certo de representar. Falo as verdades que a realidade merece. Sofro. Passo por imaturo. Talvez por não dominar a arte da hipocrisia; pré-requisito, eu sei, pois todo o mundo maduro e civilizado parece dominar essa técnica.

Sendo assim, escrever não é nada. Toda a paciência, o comprometimento e a solidão necessários para mentir escrevendo nem se comparam à dinâmica do teatro, uma criação coletiva, simulação da vida por excelência.

Melhor, então, ter nascido ator! Só assim viveria em dois universos distintamente apartados e não me sentiria tão confuso a respeito de quando e onde parar... ou recomeçar a encenação.

 

ATENÇÃO LEITORES: o meu site está em fase de construção!

Nele, além dos meus textos, haverá textos de convidados especiais.

Gente boa que escreve muito bem.

Vocês já podem conferir AQUI!

 



Escrito por André Ferrer às 08h23
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CRÔNICA: Caixa de comentários

"Queda da Bastilha" - Eugéne Delacroix

Outro dia, num daqueles espaços em branco retangulares que, nos blogs, são destinados aos comentários, fui provocado a informar as minhas inclinações políticas e ideológicas. Pelo teor da provocação, também conheci algo do meu interlocutor: duas, pelo menos, das suas principais facetas.

Em primeiro lugar, ele concordava com a perpetuação da CPMF, o ex-imposto patrocinador do populismo em voga, ou melhor, da permanente campanha eleitoral do partido-governo. Em segundo lugar, pertencia à mais nova Igreja De Cristo Agora Sim Comprometida Com A Verdade Em Detrimento Das Outras Religiões. Amigo do Criacionismo e da reclassificação da novela das oito, empenhava-se para convencer o mundo de que o macaco clone é uma obra do inimigo.

Nada mais irritante, pensei comigo. Eu esperava que um argumento evasivo e leve me ocoresse para espantar comprometimentos. O quê dizer a um “petulista” (mistura de petista, populista e petulante), que vive para desenterrar a velha choradeira bolchevique? E quando a mesma pessoa é um desses neoprotestantes que, invarivelmente, também são pregadores de jardim, teólogos por correspondência e analfabetos funcionais, e que sempre estão prestes a atacar a engenharia genética ou a defender a censura?! Para complicar, apresentei-me como iluminista.

— Iluminista?!

O sujeito não sabia. Tinha experiência com tucanos e macumbeiros. Era "versiculado e capitulado" nos mais efetivos argumentos contra os infiéis e as privatizações de Fernando Henrique Cardoso. De iluminista, no entanto, parecia nunca ter ouvido falar.

Justamente você, pensei comigo, cria de Lutero e Marx?! Você, cuja existência só é possível graças ao esforço iluminista desses dois alemães no que diz respeito ao direito à liberdade de pensamento e à informação?!

Ele não sabia. Lado a lado com a Bíblia e O Capital, em algum lugar da memória, não estariam Voltaire, a Bastilha, o rei recluso em Versailles, a guilhotina e o esfumado rosto de uma longínqua professora de quinta série? Inacreditável que uma pessoa tenha passado pelos bancos da escola sem se reconhecer, nem por um segundo, como herdeiro das Luzes! I-na-cre-di-tá-vel!

O Iluminismo, também chamado de Esclarecimento (Aufklärung, na língua alemã, Enlightenment, na inglesa, Illuminismo, em italiano, Siècle des Lumières, na língua francesa e, no espanhol, Ilustración), foi um movimento intelectual e filosófico surgido na segunda metade do século XVIII, tendo a Razão e a Ciência como formas de explicar o Universo. Após a sua disseminação, impulsionou a sociedade moderna, principalmente nos países protestantes, sendo gradual e lenta a sua influência nos países católicos. O capitalismo e, ironicamente, o marxismo são apropriadores das idéias alardeadas naquele período. Se a liberdade e a igualdade inspiraram a burguesia nascente contra a nobreza e o clero, também estavam nos corações e nas mentes dos comunistas, mais de duzentos anos depois, durante a Revolução Russa.

 



Escrito por André Ferrer às 18h24
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POR E-MAIL: O mecenato da anfepramona (conto)

"(...) Livre do meu ciúme, cheia da certeza da impunidade, você desaparece outra vez e eu escuto a porta do box correr.

- Preciso de um longo e demorado banho.

Confiro nota por nota. Duas. Três. Quatro vezes. Você reaparece. Pede amor, como sempre faz depois do banho de água e cremes. Obriga-me a dizer coisas elogiosas no teu pescoço, a melhor vendedora de inibidores de apetite do país. Pouco importa. Seguem-se as queixas, algumas tragadas no cigarro mentolado e as tais comparações (...)"

Olá pessoal! Comentem o trecho do conto de André Ferrer, acima, deixe seu e-mail e receba a história na íntegra (pdf).

 



Escrito por André Ferrer às 01h40
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CONTO DO MÊS: Falta um (André Ferrer)

Enquanto a sua mãe preparava o almoço, ele mexia no rádio. Em poucos minutos, a caminho do canavial, estaria no velho ônibus que carregava os trabalhadores.


- Não seja besta moleque! Pára com essa chiadeira! - pediu ela. - E vê se sintoniza direito a Cabiúna!


- Tou procurando mãe... Tou procurando - disse o rapaz evasivamente.


Estava na janela. Uma janela de duas folhas, aberta para o novo dia.


Único meio pelo qual o frescor da madrugada e os primeiros raios do Sol podiam entrar, aquela janela era o componente mais colorido da casa. Um barraco, na verdade, construído com sobras de madeira, retalhos de lona e pedaços de velhos "outdoors" doados por um sucateiro.


Antes de sair, ele sempre olhava o amanhecer. Gostava uma enormidade daquilo! A paisagem dali, segundo o seu pai explicara, chamava-se invernada. Muito parecida, o rapaz sabia, com o céu dos vaqueiros, peões e montadores que tanto lhe trouxera consolo nos piores dias da sua vida!


Mexia no aparelho. A mãe enrolava uma tira de pano na marmita amassada. Estações de São Paulo e do Rio vibravam na minúscula caixa; vozes misturadas, que se abalavam até do estrangeiro!


E daquilo tudo, ele também adorava uma enormidade!


Certa vez, até mesmo escutou a gaita do Teixeirinha! Seu pai tinha sido fã do cantor. Explicara-lhe uma porção de coisas sobre os gaúchos. Homens fortes e corajosos, que um dia, na época da mocidade dele, o seu pai, tinham-no contratado para cuidar de uma fazenda "cheinha" de bois.


O locutor falava português. Anunciou o sucesso "campeiro", mas o rapaz não entendeu a metade. Guampa e Guaíba, por exemplo, era palavras das quais o seu pai não havia falado. Já guri, sim; guri era como o seu pai chamava os irmãos menores.

Também naquele dia, o aparelho chiou numa confusão de sinais sobrepostos. O rapaz olhou para fora, sintonizou a emissora local e levantou o volume para que a sua mãe escutasse.


- Melhorou! - disse ela, durante a introdução da música. Depois emendou, cantando animadamente: - Fiz uma casinha branca lá no pé da serra pra nós dois morar.


"Fica perto das barrancas
"Do rio Paraná."


E assim por diante.


Quando a canção terminou, a comida do jovem cortador de cana estava devidamente embrulhada.


- Eu já vou! Eu já vou! - disse ele nas duas vezes que a sua mãe insistiu.


Fechou a janela com muito custo. A imagem do vaqueiro, na parte interna de uma das folhas, apareceu; como plano de fundo, uma paisagem muito parecida com a invernada, só que bem mais bonita. Para o rapaz, o próprio Éden do catecismo!


- Tá na hora, filho, de você pegar o ônibus! - fez a mãe. - O gato tá no teu pé! Você não pode chegar atrasado!


As duas crianças da casa, que àquelas horas ainda estavam deitadas, acordaram por causa dos gritos da mãe.


O menor, que ainda não se acostumara com a idéia de ver apenas os quatro ali reunidos, perguntou a ela como às vezes fazia:


- E o pai mãe?! Tá onde o pai?!


O maiorzinho, que melhor entendia os freqüentes esclarecimentos do irmão mais velho, adiantou-se repreensivo:


- Lá no mundo de Marlboro! Lá no mundo de Marlboro!


NOTA 1: "Gato", para quem não sabe, é como se denomina o capataz (ou "carrasco") de canavial em algumas regiões do Brasil.

NOTA 2: Este conto já foi publicado em meu blog antigo e no meu espaço no site Recanto Das Letras. Para o mês de agosto, o ineditismo estará na crônica vindoura. Para quem não leu "Falta um", boa degustação! Para quem já conhece: paciência e um piparote! Até mais!




Escrito por André Ferrer às 18h57
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DA GAVETA: Surpresas da vida (ANDRÉ FERRER)

Minha descoberta foi o osso. Durante anos, a minha certeza foi esse osso. Arremessado e dolorosamente desejado até virar pó, um alvi-rubro padaço de osso. Tal achado, quer nas baixadas da Marechal, quer nos balcões da Comendador, sempre acontecia com pequeninas variações.

Uma tarde, no entanto, pressenti algo diferente. Novo desfecho? Novas emoções? Paguei para ver.

Na Matriz, sob a finíssima estátua do Frei Max, o vulto ósseo correu o céu. Num piscar de olhos, nem bem o branco chegou ao chão, a infame precipitação da matilha.

Sai da frente! Que lá vem outro! Sai da frente! Que lá vem outro!

Das mãos do açogueiro, a expulsar varejeiras para o átrio da prefeitura, o alegórico fêmur girou, bateu num galho de flamboyant e caiu entre uma lavoura e um bueiro... Fome besta de cão danado!



Escrito por André Ferrer às 20h24
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Meu comentário no

Inflamado está o debate acerca do movimento "Cansei" no blog de crônicas Blônicas. Faça como eu, leitor, passe por lá e deixe um comentário  sobre o vídeo postado pelo Nelson Botter Jr.

Minhas palavras:

"Duas perguntas bastante maniqueístas Botter: Quem defende o 'Cansei' são aqueles que não conseguiram um ministério, uma reitoria, uma secretariazinha, enfim, um emprego público qualquer no governo Lula? Quem ataca ainda acredita na fábula do plebeu que vira líder e transporta o poder do palácio para dentro dos casebres?"

Faça o mesmo:

http://blonicas.zip.net/



Escrito por André Ferrer às 00h40
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Escrito por André Ferrer às 01h33
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Alma beligerante


A. F. acordou seco. A umidade relativa do ar tratou de manter a secura e a falta de ânimo: algo em torno dos trinta por cento. No final da manhã, o varal já estava cheio de peças irretocavelmente desidratadas.

Piorou depois das 13. A fumaça dos canaviais pretejou o zênite. Sombra alguma que não fosse curta. O nariz de A. F. liquefazia-se no princípio da tarde.

Depois, a luta chamou mais forte. A. F. pensou nas básicas necessidades. Intercalou reflexões e culpas e olhadelas no relógio de pulso e luta. Se estivesse acima do básico, escreveria o romance. Toda a papelada sairia da gaveta. Último capítulo e ponto-final. Para não doer, A. F. voltou ao trabalho. Intercalou reflexões e culpas e olhadelas no relógio de pulso e luta.

No final da tarde, arrancou a esponja carnal das narinas, apertou os dedos, aguardou a última gota que se somaria à secura universal e... 18 horas.

A. F. respira. Infeliz por não ter trabalhado em seu romance, mas confortado por ter dado tudo o que podia pelas necessidades básicas (e várias gotas de secreção nasal aos trinta e pouco por cento de UR!), voltou para casa e espirrou. Amanhã é outro dia. 



Escrito por André Ferrer às 23h15
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HISTÓRIAS CURTAS PARA O MÊS DE AGOSTO

 

Antes da literatura

22 de julho, domingo, na TV Escola, passou Deleuze discutindo literatura. Trata-se de um belo documentário que o canal reprisa de tempos em tempos. Gilles Deleuze (1925-1995) é um pensador contemporâneo. Abordou temas filosóficos e artísticos para construir uma espécie de “filosofia da diferença“. Criou, entre outros, o conceito de “realidade virtual”.

Na hora de começar a escrever, muito oportunamente, devo dizer, lembrei-me da entrevista com o filósofo francês. Motivo: a tarefa pela frente era produzir um texto que justificasse uma das minhas mais profundas desconfianças, o emprego da primeira pessoa do singular.

Mas por que razão escrever num “blog”, André, se você desconfia tanto da primeira pessoa? O “Blog” não é o reino do eu? O império da voz confessional? Respondo: para ter idéias, engendrar novas redes, encontrar ângulos diferentes, ou seja, perseguir a originalidade neste verdadeiro laboratório chamado Internet.

Ora, se “blogar” não é propriamente “fazer literatura”, pelo menos privilegia a descoberta de caminhos anticonvencionais e, por conseguinte, a inovação. “Blogar”, a meu ver, é o mesmo que “preparar literatura”. “Blog” é igual a pré-literatura.

Na minha opinião, a primeira pessoa do singular é um excelente meio de sondagem literária. Poucas vezes dá certo como foco narrativo de uma obra terminada, mas constitui um bom método exploratório.

Diante da folha - ou tela - em branco, é muito comum que eu comece a pensar um texto narrativo na primeira pessoa. Acho infinitamente mais fácil gerar idéias estando na pele de algum personagem do que à distância, como um narrador na terceira pessoa. Obtidas, assim, todas as idéias necessárias para a construção de um certo universo, sinto-me abastecido e preparado para reescrever a história mediante outros pontos de vista, o que, a meu ver, anuncia um estágio mais lúdico, inventivo e prazeroso do trabalho: a escrita criativa propriamente dita.

Não quero, aqui, defender esta “minha verdade” como absoluta. Meu objetivo é apenas testemunhar o valor criativo do único método que me encantou até agora - razão pela qual continuo escrevendo crônicas e contos - e a satisfação encontrada com o resultado final, síntese ou enxerto das várias “primeiras pessoas” revestidas pelo distanciamento de um narrador na terceira pessoa. Traduzir histórias da primeira para a terceira pessoa tem sido o caminho mais seguro que, até o momento, consegui encontrar na produção de textos narrativos.

Deleuze também pensava assim. No seu depoimento, não diz claramente que o escritor deva gerar idéias na primeira pessoa e traduzi-las na terceira pessoa. Ele afirma, no entanto, que o escritor deve se defender a todo custo da tentação de falar excessivamente a respeito de si mesmo.

Foco narrativo, Deleuze, realidade virtual, blogs.

Como primeiro “post” deste meu “blog” - depois de um longo tempo sem escrever uma só linha para a Internet -, achei bastante adequado tocar no assunto.

 

É o lobo! É o lobo!

Lembro-me bem daquela tarde. A. F. e eu diante da mesa do café. Concordávamos que nenhum instrumento ou símbolo subversivo tinha conseguido escapar da massificação. Ele sempre ganha, dizia eu a respeito do sistema. Apropriou-se da jaqueta de couro à James Dean, da boina do Che Guevara e do bracelete punk. Instalou uma rede mundial de butiques. Reduziu o ideal revolucionário ao silk-screen das camisetas. E agora, nem mesmo a versão eletrônica do diário adolescente escapou.

- O blog?

- Sim A. F.! Quantos produtos disfarçados de blog a Internet ganhou?

- Tem razão. Na maioria das vezes, sob o comando dos inimigos da ética e da democracia.

- Lobos em pele de cordeiro.

- Sim. E muitos jornalistas tem blog. Nem sempre a serviço do bem. Às vezes, Toni, chega a ser patético ler um post cujo conteúdo é implicitamente favorável aos Gautamas, Calheiros e aforismos presidenciais.

- Ele sempre ganha - respondi. - Não tem jeito.

- Quer mais café Toni?

 

CURTA

Certa vez, A. F. saiu de casa, encontrou um velho conhecido e escutou vários elogios. A. F. refletiu. Descobriu-se no outro como num espelho e, à maneira de teste, tomou a resolução de elogiar. Minutos depois, quando percebeu que o outro não passava de si mesmo, vomitou. Tinha descoberto a hipocrisia no estado bruto.

 

MAIS CURTA AINDA

Nada leva mais à reflexão do que a imagem especular de um especulador.

 

 

 



Escrito por André Ferrer às 23h51
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