Blog do André Ferrer




Escrito por André Ferrer às 01h33
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Alma beligerante


A. F. acordou seco. A umidade relativa do ar tratou de manter a secura e a falta de ânimo: algo em torno dos trinta por cento. No final da manhã, o varal já estava cheio de peças irretocavelmente desidratadas.

Piorou depois das 13. A fumaça dos canaviais pretejou o zênite. Sombra alguma que não fosse curta. O nariz de A. F. liquefazia-se no princípio da tarde.

Depois, a luta chamou mais forte. A. F. pensou nas básicas necessidades. Intercalou reflexões e culpas e olhadelas no relógio de pulso e luta. Se estivesse acima do básico, escreveria o romance. Toda a papelada sairia da gaveta. Último capítulo e ponto-final. Para não doer, A. F. voltou ao trabalho. Intercalou reflexões e culpas e olhadelas no relógio de pulso e luta.

No final da tarde, arrancou a esponja carnal das narinas, apertou os dedos, aguardou a última gota que se somaria à secura universal e... 18 horas.

A. F. respira. Infeliz por não ter trabalhado em seu romance, mas confortado por ter dado tudo o que podia pelas necessidades básicas (e várias gotas de secreção nasal aos trinta e pouco por cento de UR!), voltou para casa e espirrou. Amanhã é outro dia. 



Escrito por André Ferrer às 23h15
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HISTÓRIAS CURTAS PARA O MÊS DE AGOSTO

 

Antes da literatura

22 de julho, domingo, na TV Escola, passou Deleuze discutindo literatura. Trata-se de um belo documentário que o canal reprisa de tempos em tempos. Gilles Deleuze (1925-1995) é um pensador contemporâneo. Abordou temas filosóficos e artísticos para construir uma espécie de “filosofia da diferença“. Criou, entre outros, o conceito de “realidade virtual”.

Na hora de começar a escrever, muito oportunamente, devo dizer, lembrei-me da entrevista com o filósofo francês. Motivo: a tarefa pela frente era produzir um texto que justificasse uma das minhas mais profundas desconfianças, o emprego da primeira pessoa do singular.

Mas por que razão escrever num “blog”, André, se você desconfia tanto da primeira pessoa? O “Blog” não é o reino do eu? O império da voz confessional? Respondo: para ter idéias, engendrar novas redes, encontrar ângulos diferentes, ou seja, perseguir a originalidade neste verdadeiro laboratório chamado Internet.

Ora, se “blogar” não é propriamente “fazer literatura”, pelo menos privilegia a descoberta de caminhos anticonvencionais e, por conseguinte, a inovação. “Blogar”, a meu ver, é o mesmo que “preparar literatura”. “Blog” é igual a pré-literatura.

Na minha opinião, a primeira pessoa do singular é um excelente meio de sondagem literária. Poucas vezes dá certo como foco narrativo de uma obra terminada, mas constitui um bom método exploratório.

Diante da folha - ou tela - em branco, é muito comum que eu comece a pensar um texto narrativo na primeira pessoa. Acho infinitamente mais fácil gerar idéias estando na pele de algum personagem do que à distância, como um narrador na terceira pessoa. Obtidas, assim, todas as idéias necessárias para a construção de um certo universo, sinto-me abastecido e preparado para reescrever a história mediante outros pontos de vista, o que, a meu ver, anuncia um estágio mais lúdico, inventivo e prazeroso do trabalho: a escrita criativa propriamente dita.

Não quero, aqui, defender esta “minha verdade” como absoluta. Meu objetivo é apenas testemunhar o valor criativo do único método que me encantou até agora - razão pela qual continuo escrevendo crônicas e contos - e a satisfação encontrada com o resultado final, síntese ou enxerto das várias “primeiras pessoas” revestidas pelo distanciamento de um narrador na terceira pessoa. Traduzir histórias da primeira para a terceira pessoa tem sido o caminho mais seguro que, até o momento, consegui encontrar na produção de textos narrativos.

Deleuze também pensava assim. No seu depoimento, não diz claramente que o escritor deva gerar idéias na primeira pessoa e traduzi-las na terceira pessoa. Ele afirma, no entanto, que o escritor deve se defender a todo custo da tentação de falar excessivamente a respeito de si mesmo.

Foco narrativo, Deleuze, realidade virtual, blogs.

Como primeiro “post” deste meu “blog” - depois de um longo tempo sem escrever uma só linha para a Internet -, achei bastante adequado tocar no assunto.

 

É o lobo! É o lobo!

Lembro-me bem daquela tarde. A. F. e eu diante da mesa do café. Concordávamos que nenhum instrumento ou símbolo subversivo tinha conseguido escapar da massificação. Ele sempre ganha, dizia eu a respeito do sistema. Apropriou-se da jaqueta de couro à James Dean, da boina do Che Guevara e do bracelete punk. Instalou uma rede mundial de butiques. Reduziu o ideal revolucionário ao silk-screen das camisetas. E agora, nem mesmo a versão eletrônica do diário adolescente escapou.

- O blog?

- Sim A. F.! Quantos produtos disfarçados de blog a Internet ganhou?

- Tem razão. Na maioria das vezes, sob o comando dos inimigos da ética e da democracia.

- Lobos em pele de cordeiro.

- Sim. E muitos jornalistas tem blog. Nem sempre a serviço do bem. Às vezes, Toni, chega a ser patético ler um post cujo conteúdo é implicitamente favorável aos Gautamas, Calheiros e aforismos presidenciais.

- Ele sempre ganha - respondi. - Não tem jeito.

- Quer mais café Toni?

 

CURTA

Certa vez, A. F. saiu de casa, encontrou um velho conhecido e escutou vários elogios. A. F. refletiu. Descobriu-se no outro como num espelho e, à maneira de teste, tomou a resolução de elogiar. Minutos depois, quando percebeu que o outro não passava de si mesmo, vomitou. Tinha descoberto a hipocrisia no estado bruto.

 

MAIS CURTA AINDA

Nada leva mais à reflexão do que a imagem especular de um especulador.

 

 

 



Escrito por André Ferrer às 23h51
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